19 setembro 2005

Fala contida!


Na visão de Sartre o intelectual é um ser independente que não atende aos caprichos e conveniências ideológicas e/ou partidárias e que sempre busca a verdade ou confronta a verdade, imposta por sofismas ou silogismos, com os fatos. Assistimos uma crise de valores sem precedentes na nossa breve história, vemos os ícones da civilização "progressista" fugirem a um papel digno de negação da negação, vemos personagens famosos da república da esperança, re-fundando o absurdo para preservar mazelas e o poder das mazelas e do clientelismo, sinecuras são perdoadas em nome de um famoso patrimônio ético, talvez aí esteja todo o problema, essa visão patrimonialista da ética deve está na origem de todas as falcatruas. A seguir, num exercício de pura retórica, reproduz-se a fala contida de um desses intelectuais engajados que desistiram do escrutínio da verdade em nome de suas verdades pessoais inabaláveis, tanto quanto, o citado patrimônio. Trata-se de mais um exercício para tentar entender uma grave crise de valores e porque os intelectuais estão caindo em descredito.
"Nós que sempre pregavámos a luta de classes, que fomos intransigentes, que denunciávamos, que praticávamos o fora qualquer coisa, que nos auto-intitulavámos os donos da ética e da verdade, que sempre propusemos cpis e que não gostavámos de alianças com os outros, mesmo quando a menor noção de espirito democrático demandava uma coalizão, os sujos e ímpios, nós sabemos o que fomos, somos e seremos, como podemos alimentar uma sensação de alivío e harmonia e de concordia ou bom companheirismo, como podemos inspirar tantos anos de ódios como se ainda estivessemos no araguaia contra todos os burgueses e emparedados??? Certamente, [tossindo e ajeitando o óculos], nao temos saída digna, seria um ex-vita, assumir que compramos deputados, que superfaturamos contratos publicitários de estatais, que usavámos o banco do povo para estender nossos tentáculos aparelhadores, que usávamos os contratos com empresas de lixo e ônibus para montar uma rede de poder via caixa-dois, seria um suicídio político confirmar, ironia das ironias, justo agora que conseguiram pegar o ex-prefeito, que, sim, nós também enviámos dinheiro para paraísos fiscais sem, obviamente, avisar o herário que estavámos, no mínimo, sonegando, não vamos comentar também a origem dessa derrama, de onde os nobres contraventores arrumaram esse mala calvo para carregar os malotes e para laranjar na mídia? São tantos os cuidados dessa fala, que deverei, deveriámos, tergiversar, disfarçar, aliás, prática comum na tradição clientelista-populista da américa latina, nos momentos em que as provas são cabais [estranho como a globo e o ministro usam essa expressão que diz-se de algo definitivo e sem máculas] evita-se a resposta objetiva, para apoiar-se nos nobres números da economia, que se vai bem, preserva-se, se vai mal, usa-se como bode expiatório, enfim, nesse dia, nessa hora, devo dizer a essa gente sofrida, que, bem...[novo acesso de tosse, quase um escarro, o suor escorre na face], não fizemos nada e que tudo não passa de ódio de classes e preconceito, afinal temos um de nós no poder legitimo e eles, todos, a imprensa, o cidadão comum, o bispo e a esquerda da esquerda, a direita, como não, os estudantes a força e a tarefa, a globo e todos os demais jornais e opositores, têm apenas inveja e ódio do nosso sucesso, afinal nossa ética-de-ocasião é uma na oposição e bem outra na situação, sendo que, a única coisa que as coloca no mesmo diapasão é uma inescrupulosa corrida pelo poder total...Não ousaria romper essa trajetória de glórias e poder falando a verdade.... "

11 setembro 2005

Sonoridades


Agora tá o véio Lula truando lá fora!!! Caba não, mundão!!!!(Suassuna)

O velho, quem saberá dizer, será/seria o cachorro do vizinho, o do mato de dentro, ou era uma alusão ao trovão de quem passarinhava pulando nas cercanias como quem quer descobrir o destino do sol que escafedeu-se, sumiu-se, tomou escuro, trovoou? Sabe-se também que não enxergava o vivente, escutar só de sentir com o corpo no chão o trem que passava, o som tectônico, sem forma ou origem, som do prisma na sola do sapato, angulosidades da lida, querem que sucumbas trancado na casa dos tios no meio da grota, a léguas de valparaiso ou de bom despacho, quem sabe minas ou cerrado, sertão, certamente, daqueles que os hérois da época cavalgavam e onde os meninos empinavam papagaio, ou derrubavam cercas de sobras das queimadas, jogando bola na lama em dia de chuva e trovão....

03 setembro 2005

Nada a declarar


Um equilibrio instável pode sobreviver por anos sem que as forças de explosão ou implosão se manifestem, é uma ilusão a mais, acreditar que as coisas estão postas porque não mudam ou porque mudam, tanto faz, remos nao empurram a canoa se ela é pequena e o espelho dágua plano, calmo, opaco, e nao refratário ao sol do paralelo 33 ou quase, temos que exercitar um plano lógico, remaremos dos dois lados, alternadamente, e nao pensaremos naquilo que estao falando na margem oposta, caso contrário estaremos, literalmente, empurrando com a barriga ou rodopiando, [exageradamente, essa figura de linguagem nao funciona, afinal o bote salva-vidas não tem motor a combustao] funciona, porem, avaliar por que estamos a deriva ou onde estao as forcas que promovem o equilibrio, como elas se manifestam em sistemas dinamicos? Provavelmente, nao afundaremos e a travessia, como queria Diadorim ou Teobaldo, é o melhor da festa, danca da moto-serra, "o real nao se dispoe no comeco ou no fim, mas na travessia" (do Rosa em versao livre)...