19 julho 2015

o bardo e a feira

ontem fomos numa feira comunitária, em frente de um prédio velho que abriga uma loja que vende objetos usados "em bom estado de uso". Na realidade a feira era promovida pela loja, nesse dia, não há papel moeda, apenas troca-troca. Em Caruaru, no Pernambuco, e em Teresina, no Piauí, também funcionam feiras semelhantes, sem moeda, apenas troca. Contudo, o pedaço da troca da feira que fomos ontem no bairro industrial da cidade, não precisava levar algo para a troca, simplesmente, o convidado pode pegar o que quiser nas caixas e tendas em um espaço grande o suficiente para permitir livre circulação de pessoas. Havia de tudo um pouco, prataria, cristais, louças, caixas de guardar fichas acadêmicas, videos de computador, máquinas datilográficas com os respectivos manuais, TVs, pratos, talheres, canecas, roupas, até um "rabo quente" foi encontrado, tudo em condições plena de uso. 

Em um canto mais afastado livros diversos, fitas cassetes, cds e vhs, tudo espalhado ao livre alcance das mãos, sem restrições, os trabalhadores da feira ficam do outro lado, atualizando as bancas do pega lá sem trocas e ainda oferecem sacolas usadas para levar o que escolhestes.
A população da feira era de pobres num sentido bem especifico do termo, nossa classe média talvez seja uma identificação mais apropriada. Muitas línguas, crianças, velhos, sim, muitos brinquedos, patins, quebra-cabeças e instrumentos musicais para crianças, baralhos de encartes para estudar o vocabulário e bonecas de pano coloridas, caixas de música... 
Confesso o meu constrangimento, como assim, pegar algo se não tenho nada para dar em troca, se não trouxe nada? Em pouco tempo, percebi que a indelicadeza seria não participar, "como assim, não precisas, quem não precisa?" Timidamente me aproximei das tendas dos livros, a princípio não consegui me empolgar, livros em alemão sobre quase tudo e muito best-seller, nada relevante, 
Encontrei perdido numa caixa fora da tenda um Auster, em alemão, com receio olhei e resolvi ficar, até ali, não tocava nos livros. Todos olham, pegam, alguns resmungam e enchem caixas ou sacolas, ficamos atrás em silêncio, a pessoa da frente avança a esquerda ou a direita, entramos e estamos no jogo. Percebi depois de uma hora nesse ritual que os tesouros estão lá: matemática e estatística, Thomas Mann, Naipaul, uma pequena biografia de Menuhain e Rilke, em pouco tempo recebi três ofertas de sacolas, estava de mão cheias. Entendi que estava me empolgando, fiquei só com aqueles e taças de chopp do século dezenove. A feira continuou lá por todo sábado, em frente um parque com gansos do pescoço longo e brancos...

Um comentário:

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Caro filósofo, distinto bardo:
Fui lendo e pensando no conceito de capital social, aquele "bowling alone, bowling together". Fiquei feliz pela experiência do bardo e triste pelas inevitáveis comparações com as coisas do lado de baixo do equador, que nunca estiveram tão baixas.
Tchüss
DdAB