19 julho 2014

"por algum motivo insondável"

a leitura, só ela, impede o curso normal das palavras escritas pelo mesmo motivo do título, roubado do Daniel Galera logo na primeira página, pelo mesmo motivo, interrompo a leitura para escrever, pelo mesmo mote, sem saber o porque, eis o tom, o disperso tom, não saberemos nunca, mas ler, escrever, ler novamente, assim, no imperativo, somos, seremos, fomos, até agora mais lendo do que escrevendo, vivemos. Seres insondáveis, então, percorrem o arcabouço criativo, o uso despretensioso de palavras, a trama, a urdidura da mesma, a imensidão polar ou desértica dos fios condutores da vida, qualquer uma, seguem o insondável caminho, o 'path dependence' para alguns, parta outros, o "evolucionário ajuste a restrições insondáveis, como de resto, a hora última e o movimento das cifras nos "etudes de Chopin" ou no e do próprio Galera, que nasceu em São Paulo, mas veio viver em Porto Alegre, como o insondável ser que escreve sem propósitos, apenas para despejar a carga, arriar a burra, no pergaminho digital que nunca se apaga, o registro, ponto.

29 junho 2014

copa sem brilho....

a copa do mundo de futebol no Brasil é um fiasco ou é um sucesso estupendo, não há meio-termo, a única novidade é a adesão de boa parte da esquerda - a que se encontra no poder, lógico -  à nobre arte do futebol que passou do "ópio das massas" para o reino das oportunidades de mostrar um Brasil melhor ao mundo. tecnicamente, sem extremos, temos uma copa igual às demais, em tudo, a única diferença, talvez, seja a percepção dos fiascos todos com um olhar mais próximo de quem é da sede ou do lugar que organiza a tal festa. Dito isso, temos:

  • um futebol ruim no geral, times visivelmente pouco preparados, e jogadores sem condições físicas para uma competição de férias...
  • a seleção brasileira só existe na boca da mídia, ajunta gente jovem e disposta, mas sem nenhum brilho e que tenta ganhar na correria, nenhuma jogada brilhante ou articulada, apenas correria e voluntarismos...
  • as surpresas da copa: Costa Rica, Argélia, Colômbia, Chile, etc. gravitam entre o sofrível e o mediano absoluto, não são times de escol e só enganam os adoradores de adjetivos sem conteúdo
  • os favoritos Argentina e Holanda, ainda não fizeram uma partida com o brilho típico de verdadeiros campeões, são comuns e correm bastante, mas não vieram preparados para participar de um torneio importante.
  • a única que destoa desse quadro todo até aqui é a Alemanha, resta saber se irá suportar o calor e a mesmice chata que essa copa tem sido...
  • a França, bem, melhor não encontrá-los antes da final
  • Os outros aspectos todos foram silenciados pelo nosso patriotismo de ocasião e pelo paternalismo da imprensa internacional que se comporta, até aqui, como visitantes educados que fingem não perceber ou ver o  que não funciona e por quê...

10 junho 2014

inacabados

somos, melhor dizer, seremos, um país de inacabados, não gostamos de prazos, de hora marcada, nas obras sempre seguimos a estética da aparência, o gramado é mais importante do que as cadeiras ou do que os hidráulicos para os banheiros, descuidamos da segurança, da rampa de acesso para os que estão em dificuldades, no fazer a obra a acessibilidade é o detalhe que não precisamos fazer ou acabar, em tudo, temos o gramado, contudo. Em dias de vésperas sempre estamos com muito por fazer, mas já temos o  principal da festa ou para a festa, a monumental fachada, o porto sem guidastes para os toneis ou rampas para o atracamento, sem profundidade ou calado, lá estão projeto encalhado, papel inacabado, no papel, apenas, mas a vistosa embarcação ou plataforma com a foto do político, do gestor bajulador e seus séquitos, adorna prontamente acabado o breviário e o programa da apresentação enganadora. Teremos chão batido ao redor,  e não encontramos a lista dos operários da monumental obra que voltam pra casa no ônibus ou na linha de transporte inacabada do trem de superfície da cidade subterrânea. 
Ao chegar o dia, damos o pontapé inicial na grande obra, gargalhamos e fazemos discursos grandiosos sem nenhuma alusão ao que está por fazer, o inacabado que tanto aprovamos e cumprimos e somos, assim como a vida digna, inacabada, inconclusa, inválida....

31 maio 2014

o herói sem nome

o narrador não tem nome e é em torno das suas lembranças e dos seus doces e madalenas que relembramos viva e inteligentemente o fio condutor dos tempos, idas e vindas, e nos perdemos ou nos achamos com a mesma facilidade e a eterna sem sabedoria, uma linha tênue de encontros e desencontros, conquistas tão efêmeras quanto as derrotas, viagens sem mais valias, sem o significado algum de ser, apenas. uma vida, muitas vidas e a fuga de bach, de altos e baixos, em fuga, suma fuga, uma acentuada partita, uma não, várias, uma sofisticada apreciação do vácuo ou do moto contínuo, melhor ser sem nome o tempo perdido e a procura, ganhamos apenas por nos permitir conhecer o herói sem nome...

01 maio 2014

o Brasil é um país injusto

a retórica funciona, mas o olhar atento, seria mais cauteloso. Países não são justos ou injustos, são construtos apenas para indicar arranjo político histórico ou outra coisa qualquer, mas não decidem, escolhem, não tomam decisões enfim. Uma maneira mais honesta de abordar as nossas injustiças seria falarmos das nossas regras, das nossas instituições ou do que aceitamos como dado sem controvérsias e que acabam promovendo desigualdades de oportunidades reais e promovem inclusões precárias, insatisfatórias, portanto. Alguém já fez essa lista das nossas injustiças, mas talvez possamos lista-las, como vemos, ou melhor, como nos acorre:
1. Ensino público gratuito para crianças
2. Sistema Único de Saúde
3. Universidades públicas federais
4. Postos públicos de saúde
5. Previdência pública
6. Programas de transferências de renda
7. ICMs
8. Subsídios do BB, CEF e BNDEs
9. Infra-estrutura pública em geral: esgotos, estradas, portos, rodoviárias, aeroportos, etc
10. Hospitais públicos e pronto-socorros
11. Congresso Nacional....

o público ai não é ideológico no sentido mais rasteiro, é apenas uma triste constatação, o que deveria equilibrar as nossas dificuldades e atenuar as nossas desigualdades acabou colocando-nos numa armadilha de desigualdade e prendendo-nos num equilíbrio de injustiças perpétuas. O Brasil do título, poderia ser o Estado.

10 abril 2014

pesquisa desacreditada

a pesquisa nacional por amostragem de domicilio (pnad) será interrompida, sabe-se lá porque, em todos episódios de suspensão da aula ou de pesquisas e da geração de dados impessoais, perdemos todos. As mudanças metodológicas quando não são bem explicadas cumprem o mesmo desserviço ao todo e a cada um...
na mesma semana duas situações de sombra e obscurantismo sobre a atividade de pesquisa em órgãos públicos de pesquisa no Brasil. Mesmo que seja apenas uma coincidência, o que nem de longe parece ser o caso, essas interrupções e atropelos são danosas para a credibilidade e para a reputação da pesquisa e do país em geral. Não precisava ser assim e não deveria assim ser, algo vai mal, algo na condução das coisas perdeu o sentido e o foco e andamos sem luz própria e sem rumo. 
meu voto já foi aberto, mas não custa reforçar, estamos necessitando de mudanças profundas e de alternâncias, deixar passar  o novo ou o não o mesmo e trocar os que assinam como donos do poder. Não se trata de ideologia, diga-se, é incompetência e falta de liderança, apenas. Vamos torcer para que passe logo e depressa...

05 abril 2014

sobre a divulgação de pesquisas científicas...

particularmente não publicaria o resultado da pesquisa sem o certificado do comitê de ética da instituição. Sim, pesquisas tem limites éticos que devem ser respeitados e todo cuidado tem que ser despendido para evitar equívocos morais graves. Uma vez publicada sem referências éticas claras, nada resta da pesquisa e a melhor atitude é ignora-la. 
Outro aspecto que esse triste episódio da polêmica em torno dos números da pesquisa sobre a visão média brasileira em relação ao estupro e o machismo [é difícil até mesmo definir o objeto e o propósito da tal pesquisa] é a forma de divulgação de resultados da pesquisa por parte do pesquisador e da instituição a que pertence. Em qualquer nível a pesquisa deve ser submetida a uma banca de avaliadores e/ou parecerista e deve ser divulgada em revistas indexadas com fator de impacto relevante e que trata com isenção a avaliação do conteúdo, metodologia, adequabilidade do texto e das interpretações dos mesmos. Ao perder a possibilidade desse filtro e publicar direto para a imprensa ou via editores locais subordinados, perdemos uma massa crítica importante para evitar grandes erros e gafes. 
Creio que o IPEA deveria reforçar esses mecanismos e só deixar sair para a grande imprensa, trabalhos aceitos em revistas qualificadas e que obedeçam estritamente posturas de isenção e que sigam cuidados pertinentes para garantir originalidade e qualidade e correção dos resultados apontados e, cujo o corpo editorial toma cuidados para que os pareceristas não conheçam os autores e a origem dos trabalhos que estão avaliando.
Dito isso, acrescento trechos da opinião de três economistas que respeito muito:

“O problema do IPEA não foi a fumaça de hoje, mas as evidências de um incêndio que já consome a instituição há muito tempo. (Diga-se de passagem o IPEA tem um corpo técnico íntegro e excelente). O problema é institucional e a questão de hoje não é se o IPEA foi forçado ou não a mudar as estatísticas "para salvar" o Brasil de uma vergonha nacional e internacional sem precedentes. O problema é que sua imagem já esteja tão abalada a ponto de que as pessoas discutam essa possibilidade (o que nunca saberemos).”(Comim, Flávio)

“Eu já admirava o Rafael Osório pela seriedade, produção e capacidade técnica. Agora eu o respeito ainda mais pela dignidade com que lidou com a situação. Procurou o erro, encontrou, assumiu, pediu desculpas e se puniu. Quem dos seus críticos teria dado todos esses passos?”(Monastério, Leonardo)


Um conhecedor profundo do tema não deveria ter desconfiado da informação que 65% dos brasileiros acreditam que mulheres com pouca roupa merecem ser atacadas? Uma vez que aparecesse a desconfiança a reação natural não seria checar novamente as tabulações? Não era de se esperar que os colegas tivessem estranhado o resultado? Neste caso o correto a fazer não seria voltar para os dados? Por que nada disso aconteceu e o erro passou desapercebido?”(Ellery, Roberto)