10 abril 2014

pesquisa desacreditada

a pesquisa nacional por amostragem de domicilio (pnad) será interrompida, sabe-se lá porque, em todos episódios de suspensão da aula ou de pesquisas e da geração de dados impessoais, perdemos todos. As mudanças metodológicas quando não são bem explicadas cumprem o mesmo desserviço ao todo e a cada um...
na mesma semana duas situações de sombra e obscurantismo sobre a atividade de pesquisa em órgãos públicos de pesquisa no Brasil. Mesmo que seja apenas uma coincidência, o que nem de longe parece ser o caso, essas interrupções e atropelos são danosas para a credibilidade e para a reputação da pesquisa e do país em geral. Não precisava ser assim e não deveria assim ser, algo vai mal, algo na condução das coisas perdeu o sentido e o foco e andamos sem luz própria e sem rumo. 
meu voto já foi aberto, mas não custa reforçar, estamos necessitando de mudanças profundas e de alternâncias, deixar passar  o novo ou o não o mesmo e trocar os que assinam como donos do poder. Não se trata de ideologia, diga-se, é incompetência e falta de liderança, apenas. Vamos torcer para que passe logo e depressa...

05 abril 2014

sobre a divulgação de pesquisas científicas...

particularmente não publicaria o resultado da pesquisa sem o certificado do comitê de ética da instituição. Sim, pesquisas tem limites éticos que devem ser respeitados e todo cuidado tem que ser despendido para evitar equívocos morais graves. Uma vez publicada sem referências éticas claras, nada resta da pesquisa e a melhor atitude é ignora-la. 
Outro aspecto que esse triste episódio da polêmica em torno dos números da pesquisa sobre a visão média brasileira em relação ao estupro e o machismo [é difícil até mesmo definir o objeto e o propósito da tal pesquisa] é a forma de divulgação de resultados da pesquisa por parte do pesquisador e da instituição a que pertence. Em qualquer nível a pesquisa deve ser submetida a uma banca de avaliadores e/ou parecerista e deve ser divulgada em revistas indexadas com fator de impacto relevante e que trata com isenção a avaliação do conteúdo, metodologia, adequabilidade do texto e das interpretações dos mesmos. Ao perder a possibilidade desse filtro e publicar direto para a imprensa ou via editores locais subordinados, perdemos uma massa crítica importante para evitar grandes erros e gafes. 
Creio que o IPEA deveria reforçar esses mecanismos e só deixar sair para a grande imprensa, trabalhos aceitos em revistas qualificadas e que obedeçam estritamente posturas de isenção e que sigam cuidados pertinentes para garantir originalidade e qualidade e correção dos resultados apontados e, cujo o corpo editorial toma cuidados para que os pareceristas não conheçam os autores e a origem dos trabalhos que estão avaliando.
Dito isso, acrescento trechos da opinião de três economistas que respeito muito:

“O problema do IPEA não foi a fumaça de hoje, mas as evidências de um incêndio que já consome a instituição há muito tempo. (Diga-se de passagem o IPEA tem um corpo técnico íntegro e excelente). O problema é institucional e a questão de hoje não é se o IPEA foi forçado ou não a mudar as estatísticas "para salvar" o Brasil de uma vergonha nacional e internacional sem precedentes. O problema é que sua imagem já esteja tão abalada a ponto de que as pessoas discutam essa possibilidade (o que nunca saberemos).”(Comim, Flávio)

“Eu já admirava o Rafael Osório pela seriedade, produção e capacidade técnica. Agora eu o respeito ainda mais pela dignidade com que lidou com a situação. Procurou o erro, encontrou, assumiu, pediu desculpas e se puniu. Quem dos seus críticos teria dado todos esses passos?”(Monastério, Leonardo)


Um conhecedor profundo do tema não deveria ter desconfiado da informação que 65% dos brasileiros acreditam que mulheres com pouca roupa merecem ser atacadas? Uma vez que aparecesse a desconfiança a reação natural não seria checar novamente as tabulações? Não era de se esperar que os colegas tivessem estranhado o resultado? Neste caso o correto a fazer não seria voltar para os dados? Por que nada disso aconteceu e o erro passou desapercebido?”(Ellery, Roberto)

03 abril 2014

orquestra de memes

o debate político no Brasil segue um caminho estranho e absolutamente arriscado, banalizamos opiniões e abusamos de descuidos com aspectos morais elementares. Há uma desonestidade crescente na internet em relação ao uso das informações e há um grande desprezo pela busca da verdade e do bom senso. Difícil não crer nas teses conspiratórias que apontam a existência de uma orquestração e um orquestrador nisso tudo. A proliferação dos memes com frases escolhidas a dedo para atacar a oposição e o uso, nesses mesmo memes, de reportagens e capas de jornais antigas para diminuir as criticas que a oposição vem fazendo aos descalabros na Petrobras e, de resto, à condução da economia pelo atual governo, são um sinal inquietante de algo podre no ambiente político atual. Agrava esse quadro a rápida disseminação desses panfletos pelos sectários de plantão, o que não parece atender ao espontaneísmo ou ao acaso. Dias duros virão, na esteira dessa falta de rigor e dessa patrulha moderna, perdemos todos, e, principalmente, perdemos o que a democracia tem de melhor que é o debate franco de ideias entre situação e oposição, o debate entre visões de mundo alternativas.

23 março 2014

um por exemplo como analogia, o fiasco.

leio com execrado pudor a fsp, um vicio, diga-se, sempre aborreço-me e nunca desisto, contínuo. Meus amigos dizem que minha implicância conspiratória sempre identifica alusões enviesadas ou algo do gênero. Mesmo assim, insisto, lendo e percebendo, no texto abaixo o autor reproduz a sua analogia para explicar a mão escondida de Albert Hirschman, ou os tais efeitos colaterais da ação do Estado e, bingo!!!

"O economista [Albert Hirschman] apontava para o conjunto de consequências imprevisíveis de uma ação do governo. Por exemplo: um programa de transferência de renda tem como propósito tirar pessoas da situação de pobreza extrema. A mão escondida é o efeito colateral: o comércio ganha força, a economia gira, novos negócios são abertos, mais impostos são arrecadados."(Felipe Gutierrez) 

Essa analogia que se apresenta como "por exemplo" é extraída ao pé da letra da propaganda oficial do governo sobre o Bolsa Familia no Nordeste brasileiro. Além de equivocada, é insuportável se e quando aplicada a Hirschman. Um fiasco.

20 março 2014

a outra América, amém

quase concordo com o articulista da fsp, coisa rara, nesses dias, dos que lá escrevem, discordo dos críticos de cinema, por arte, sempre estão errados, melhor, quase sempre. O de hoje, o do outro quase, o da concordância, está certo ao lamentar a incapacidade propositiva das oposições, o plural aqui é um exagero retórico, lógico, na pequena peça, lá, ele argumenta que todos os problemas econômicos reais são imperceptíveis e que toda a alarmante falta de luz será apagada pela falta d'água em São Paulo. Até aqui parece que estamos bem, não mais, não menos, temos isso como assentado, mas não é certo ou legitimo o papel do próprio articulista. Sutil, é verdade, porém, claro é que o opinador segue a pauta da situação e acaba ajudando a ex-presidente e atual candidata, Dilma, a infeliz.

a armadilha a qual, sem crase, estamos presos é de baixíssimo nível, um equilíbrio péssimo, enfim. Todos articulistas aceitam a pauta que o pt define e ao comenta-las, seja para elogia-las, seja para "aconselhar as oposições" acabam fortalecendo a tese dominante, aquela que propicia o equilíbrio ruim, e é simples a tese, aquela, mesmo intervencionista e ineficiente a gestão pública e a sua politica econômica siamesa: gastos públicos irresponsáveis e ineficientes, controle disfarçado de preços, uso de estatais para, protecionismo e política social assistencialista. Essas duas, gestão das coisas e da economia, a triste, acabam aliando, via discurso e ameaças veladas á "mídia  golpista" a esquerda velha, não a centro-esquerda, assim, dessa forma, tudo o que se opuser a ela, é reacionário e neoliberal, portanto. Algo nessas condições de fritura, uma alternativa que seja, já nasce em estado gasoso e sem sabor.  O pleito se aproxima e com ele a longa noite, a da transição aos solavancos e o papel mais nobre das grandes democracias, o de evitar impasses institucionais graves e profundos, continua um sonho distante para os povos da outra América, amém.

27 fevereiro 2014

não é quadrilha, é carnaval

hoje, 27/02/2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) absolveu os condenados pelo mensalão do crime de formação de quadrilha, tudo junto, nada muda, as condenações por corrupção ativa, desvio de dinheiro público e as demais implicações não mudam, mas o festival de loas e de revanches, algumas veladas, outras explicitas, contra as decisões do STF em relação ao mensalão e contra o julgamento em si, são inúmeras e atendem por uma única motivação: poupar o partido dos trabalhadores e ao ex-presidente, ex-tudo, Lula da pecha e do vexame de ter mensalido, além, é claro, da tentativa de livrar os comparsas que, estoicamente, é bem verdade, estão calados e tudo suportam. O único que roeu a corda foi o irmão vivo dos Pizollatos, algo insipido e de nojo agudo, a fuga, diga-se.
Em nada surpreende essa reação e a forma toda, troca de ministros, pressão na véspera e a esperteza toda dos Barrosos, o mais educado e empolado, uma fala mansa de `até parece`, uma beatitude de dá dó. O ministro engomadinho nem emite sinais de vergonha e segue, no seu uso cerimonioso, o discurso de palavras bonitas para atacar o ministro Barbosa, o inimigo público do partido, que, de origem menos abastada, parece cru e direto diante do "processo civilizatório" que o Barroso, ministro, acusa-o de atacar. 
É o Brasil de sempre, assimétrico, cruel em suas desigualdades, onde o simples é tosco e vitima de ataques duros dos poderosos e onde o empolado de fala mansa é o herói bem pago da turba. Nossas diferenças são de berço e remontam ao império, ao Brasil colônia. Triste ver que, o Lula, o único que pareceu furar o bloqueio e se impor como líder das massas, hoje é apenas o poderoso que tudo faz para proteger os seus companheiros, descaradamente e com as luzes de todos os postes que ele ajudou a "plantar" na vida pública brasileira. 
Triste república da falsa mobilidade social e das mazelas de grife e de ministros engomadinhos de toga passada a ferro. Rompeu-se o único lacre da decência, o supremo 6 a 5 colocou por terra uma construção admirável de democracia e um sonho de um país mais justo e decente, honesto mesmo. O país ainda tem dono e eles são educados e irmanados com o planalto, uníssono. Ao outro, os Barbosas de ser, cabe a obediência servil ou o achincalhe. Não é quadrilha, afinal.

08 novembro 2013

oximoros urnológicos

Toda propaganda é enganosa, as com legendas e políticas, mais ainda. Essa é uma época surda para as idéias lógicas e pensadas, não somos afeitos ao pensamento estatístico, como bem diz-nos a economia comportamental que, como bem sabemos, não fala, nem pensa, agora vale o novo slogan que mudou para país rico é país sem pobreza, um oximoro ou pior do que isso... Vivemos dias de auto-imagem e auto-exposição onde o poeta vai ao fundo do poço, simbólico e abstrato, que seja, para colher a razão, o foco  ou motivação para uma vida sem graça ou fé, apenas uma peça boiando em oxítonas e outras dopaminas, mais uma configuração lúgubre e sem ritmo de uma vida entre papeis. Enquanto isso, na televisão, o governo proclama o fim da miséria e a volta da solidariedade fraternal, um recuo no país de todos, uma volta ao fratricídio retórico, oximoros de nós contra eles, os outros. Alheio a tudo isso, o país não cresce, a indústria perece, ah, os poemas sem pré-sal, uma resiliente inflação persiste, uma ideia forte de vale tudo se sustenta entre convicções tardias, ninguém suporta os valores plurais, ou estás no oximoro ou és o outro, apagado e sem sentido.