07 junho 2015

a dupla dinâmica

"Essa recessão vai durar o quanto for necessário para recuperar a indústria. A indústria sofreu o efeito dramático da política cambial. Todos os estímulos foram incapazes de compensar o prejuízo de valorizar o câmbio para controlar a inflação. Nunca faltou demanda para produtos industriais. O que faltou foi demanda para produtos industriais feitos no Brasil."(Delfin Netto, na fsp, 07/06/2015)
O Delfim Netto é muito educado e cuidados no uso das palavras desde a época dos militares (esse é um comentário para não esquecermos de quem estamos falando, mas não deve contribuir para o argumento). Uma interpretação livre e possível da entrevista: ele está mandando uma mensagem para o Governo e para a própria presidente, afinal ele é um dos conselheiros da presidente, informal, o que é outro ponto que deveria ser criticado, mas fiquemos com o relacionado a industria no Brasil. O argumento é engenhoso e é o idêntico ao do Bresser, só que melhor articulado e mais sútil e gira em torno do mesmo ponto: há desindustrialização no Brasil e para proteger a indústria nascente temos que fechar novamente a economia e deixar o cambio flutuar para o lado certo, ou seja, deixar a desvalorização real do real atingir o ponto da impossibilidade do que é externo em produtos. È a penúltima fase do modelo substitutivo a fase Bresser-Delfim o fim do mundo. 
Nenhuma palavra sobre o que deveria ser feito para que a industria brasileira consiga produzir o melhor e o mais inovador produto no mundo com qualidade, baixos custos e sem subsídios ou protecionismos, uma peça dura e difícil de elaborar, mas mais interessante do que o atalho proposto pela dupla dinâmica, que se resume a intervencionismo dependente e irresponsável.

31 maio 2015

Sem poder

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos deputados, lembra outros presidentes do legislativo no Brasil, inexpressivos, mas ardilosos, costumam prosperar quando o presidente do executivo é fraco ou quando a base aliada não é muito aliada e tampouco base, eis o caso. 
O governo vem sofrendo derrotas seguidas, a própria eleição de Cunha uma delas. Junte-se à mediocridade de uma pauta confusa a um ambiente econômico e social de indefinições e oportunismos prosperam. Nesse ambiente, mesmo temas e propostas não tão absurdas assumem ares de absurdo em mãos tão inapropriadas. 
Denunciado pelo procurador Janot, ele, Cunha, deveria ter sido afastado da presidência da Câmara por cautela e bom senso. Não há a mínima chance desse congresso atual aprovar algo legitimo quando os presidentes das duas casas estão sendo investigados, vale o mesmo para o executivo, não há mínima chance de um governo tão fraco conduzir reformas importantes. Perdemos tempo com essas supostas reformas. A oposição e a situação deveriam construir um acordo e afastar os dois suspeitos das respectivas presidências e concentrar esforços na governabilidade e na preservação da saúde econômica do país. 
Esse é um desabafo ingênuo e inócuo, mas alguém vai entender ou aceitar que a reeleição acabou numa legislatura conduzida por Renan e Cunha e durante o mandato de Dilma, a Roussef?? O mais sensato seria cuidar de arranjos mais simples para retomar a credibilidade e o dinamismo da economia e resolver questões complexas nos próximos congresso e governo,

25 maio 2015

moleira plena, o bardo.

 descemos para o centro para caminhar por ruas novas (sic), logo na primeira rua, calçadas largas e mesas com gente de todo lugar do mundo, 'mira' e o característico agradecimento local, italianos  e risadas sonoras, mais, muito mais, do outro lado da rua uma barbearia com o título convincente de "hair´s design" e uma variante árabe do mesmo nome. A barba desproporcionalmente grande desde o inverno passado e o voo dos patos no córrego ao lado da cervejaria, foram decisivos, entramos, a hora é agora.
Levei alguns segundos para entender que deveria sentar e esperar aproximadamente 20 minutos.  Escolhi um sofá grande nos fundos em frente a um barbeiro jovem de óculos moderninho e relativamente baixo, que lembrava muito um lateral esquerdo fluminense, provavelmente árabe. Entre duas guris, filhas do senhor à minha direita, e de vários fortões, um deles com uma clássica de salto alto no colo, aguardei ansioso.
Acompanhei o corte de cabelo dos fortões, em silêncio e com uma expressão corporal de fadiga, o barbeiro seguia sempre o mesmo roteiro, com a máquina raspa tudo atrás, depois molha o que sobrou na moleira, remodela com a tesoura, e, não satisfeito,  passa a navalha atrás. O resultado era sempre o mesmo, uma combinação de Ronaldo fenômeno contra a Turquia e moicanos do Guarani de Sobral...
Passados 15 minutos e três cortes iguais, comecei a desenvolver manias persecutórias, lembrei que as gurias riram quando entrei, comecei a elaborar o porquê. Eu era, afinal, o estranho naquele lugar e já imaginavam meu cabelo no formato moleira plena. Imaginei um plano de fuga, na minha contagem, seria o próximo, tarde demais para desistir, perguntei ao vizinho se todos os cortes eram no mesmo formato, ele respondeu, 'sim, você poderá ser atendido por qualquer um', pelo nível de comunicação seria o corte mais definitivo  da minha vida e seria o alvo de piadas no seminário das terças, e, provavelmente, teria que adiar meu retorno, já me via preparando uma carta formal solicitando mais prazos, sem revelar integralmente os motivos.
Chegou a minha hora, solicitei barba e cabelos curtos, mas cuidado com a máquina, mostrei uma foto de 10 anos atrás no celular, o lateral do fluminense não gostou muito e disse em alemão curto, 'não precisa mostrar mais  o celular', e assim fomos, em dado momento o meu vizinho da resposta se aproximou para ajudar na tradução, agora eram três línguas locais e a minha, 'muito bom' disse com voz tremula, 'agora o mesmo para a barba... mais, por favor'. Insisti que um lado estava assimétrico, e denso na frente, ao final tentei perguntar quanto era, nada de acordo, levaram-me até o caixa e paguei doze pila, uma quantia justa para um belo trabalho.
'O senhor esqueceu a mochila..',  dizia o meu interprete e personal-estilista já na calçada, agradeço efusivamente, atravesso a rua e vou comemorar o voo dos patos e a  não navalhada...

16 maio 2015

A volta do Lula ao poder

o Schwartsman, na folha de São Paulo, usa Aristóteles para defender ou justificar mudanças promovidas por chantagens de um legislativo corrupto e acentuadamente envolvido com as denuncias da operação 'Lava Jato' (link indisponível para não assinantes), erra duplamente, primeiro por defender esse ardil, segundo porque as mudanças são péssimas para o país. 
Noutro capítulo, aparentemente distinto, Lula ou o que sobrou dele, orienta a presidente Dilma para que não vete o fim do fator previdenciário, pois isso a desgastaria ainda mais com as bases do seu partido, o PT. Essa é a angústia dos tempos que vivemos, a escolha infeliz de Dilma para presidir o país nos trouxe ao mundo desprezível dos 'fins justificam os meios' e do populismo de resultados e que dane-se o bom senso econômico e a defesa honrosa de princípios, a começar pelos procedimentos e regras.
um governo que gastou o que não podia e que foi leniente com a volta da inflação por segui o modelo Leda Paulani (também sem link) e o desenvolvimentismo do fim do mundo, é obrigado, se quiser evitar a perda total de credibilidade do país, a fazer ajustes para evitar calotes ou o contrário e, ao mesmo tempo, é constrangido a abonar, seguir ou aceitar, aumentos no fundo partidário e desequilíbrios na previdência, ambos inviabilizando o necessário ajuste fiscal. 
Algo injustificável eticamente, tanto no caso dos fundos partidários como das mudanças na previdência, por aumentarem ainda mais rombo orçamentário. Não que a oposição tenha feito muito melhor, ela, porém, não pode ser acusada de ter criado ou apoiado a nova matriz e o tal desenvolvimentismo Lediano e leviano. 
Lula conhece o jogo, sabe que as bases do seu partido teriam levado o país para o buraco, mas sabe que sem aquela base  e aquelas ideias, mesmo que nunca colocadas em prática, nunca teria sido Lula, o cara. O conselho dele é tão vexatória e contra o país que,  exatamente como no caso do Aristóteles, temos outra chantagem em benefício próprio, a volta do Lula ao poder.

10 maio 2015

mujicas e falácias

certamente não, foi essa minha reação ao anuncio de que o nobre ex-presidente do Uruguai teria cometido a indiscrição de publicar em autobiografia autorizada ou coisa pior, uma conversa com o também ex presidente, Lula, na qual o segundo confessara ao primeiro que sabia do mensalão e que até apoiou ou participou ativamente porque essa era a pratica possível da governabilidade. 

certamente, não deveríamos publicar algo tão óbvio para o não sem tomar muitos cuidados precaucionais. obviamente um ex presidente de esquerda que apoia o presidente Maduro e que, portanto, fecha os olhos para todas as barbaridades que por lá acontecem, não cometeria um furo jornalístico tão óbvio. 

Entre nós, no entanto, a reação foi a mesma de clássicos futebolísticos, os crédulos de oposição saíram reproduzindo o 'fato', já os hipercrédulos da situação saíram-se com duas falácias lógicas. Falácia um, agora é irrefutável, ao negar o que não afirmara, tem-se a prova definitiva, Lula não sabia e o mensalão nem mesmo existiu. A falácia dois já é quase um bordão, a imprensa golpista  atacou novamente. essa parte da falácia veio acompanhada de um kit de anedotas: memes reproduzindo frases com inverdades sobre o magnânimo Lula, em encontros com empreiteiros corruptos,  por exemplo, para em seguida nega-las, etc.

[ Algum dia, teremos que criar o prêmio para memes, pelo menos ficaríamos sabendo quem os financia e gerencia.]

Esse pequeno episódio da vida cotidiana e suas repercussões atestam o nosso precário arranjo, as falácias e a credulidade nada mudam em relação ao ocorrido. Lula sabia ou não sabia, articulou ou não articulou? Tudo é uma hipótese ainda, não há evidências além das palavras. Sinceramente, a minha convicção é a de que ele sabia e de que participou ativamente, mas essa é apenas uma hipótese lógica de trabalho, não submetida ao rigor das evidências, as quais, infelizmente nunca teremos. Com ou sem Mujicas o ex presidente Lula continua sendo um suspeito potencial robusto, na minha opinião, lógico.

03 maio 2015

a inflação controlada

essa seria a nossa linha divisória, recuperada a moeda, tudo mais viria, a prosperidade, a divisão justa da renda, a cidadania, a virtude, enfim. É sabido que melhoramos, inegável, até, mas é também inegável que foi e é muito pouco, das virtudes, esquecemos da inclusão verdadeira e reproduzimos índices deploráveis de padrão de vida para uma população enorme. Seríamos, de posse de uma moeda estável e de valor, também virtuosos em mais instituições, democracia e estabilidade monetária, baixaríamos juros e acabaríamos com os oportunismos institucionais. Por fim, com o advento do partido dos trabalhadores ao/ou no poder, nunca se sabe, chegaríamos ao ápice de integridade, prosperidade e virtuosismo do bom mocismo. Passados pouco mais de 12 anos dessa história temos uma sensação de insegurança ética, a corrupção ideológica e uma governança sofismável e banal em precariedades. A população em condições de vulnerabilidade em dignidade humana continua intacta em tamanho e em perspectivas. Por fim, veremos, nos próximos capítulos, a continuidade de um modelo doentio na origem e deformado economicamente, recessivo e deprimente.

26 abril 2015

a folha, o poeta e o terron

leitor da fsp vive numa eterna barafunda, sem muitos intervalos longos, leio, por ler, desde o tempo do Edmundo Wilson e do Gore Vidal, desde os meus 15 anos, todo santo dia, leio até carta do leitor, painel e o caderno de informática, leio também os articulistas, todos, ou quase, sempre "me dão nos nervos" por excesso de trejeitos para acomodar suas convicções e defender o partido de oposição, quando esse era o PT e o da situação nos últimos 12 anos, em todos os casos sigo lendo. Agora temos o agressivo e venal Pondé, algo esnobe, opa, estou repetindo o estilo do próprio, esse e o Cony, não leio mais, agora perdemos a Cantanhede e realmente não entendo o que o Vinicius Torres faz no caderno mercado. Enfim, seguirei lendo, sem pudores, mesmo que por lá encontre coisas cruas e diretas que negam a inteligência do leitor mesmo quando querem ficar no contexto. Hoje tivemos um momento desses aqui:
"O resultado, no caso de "Sermões", adquire em certas passagens a locução de um cômico messianismo de botequim, de camaradagem entre chapas, o elogio da paudurescência em tempos contrafeitos ao livre voo do caralho." 
 Expressividade latente sem nenhum oximoro, uma bufa de estourar os tímpanos, o Nuno, autor de mais alta estima e grande, e os leitores não merecem peça tão rasa...