24 agosto 2014

a trama imperfeita e cega

muitos comentaram o resultado da copa do mundo, afinal, conseguimos realizar o evento múltiplo e as piores previsões não ocorreram, não tivemos apagões em geral, os aeroportos não ficaram congestionados e todos os jogos transcorreram normalmente, até a segurança foi adequada...

...duas hipóteses explicariam aquele feito, a mais óbvia e chapa branca, apontaria o sucesso do planejamento e da condução da coisa toda pelo governo, etc, algo absolutamente insustentável. Outra linha, no entanto, sustentaria que  fomos o que fomos, porque todo o processo, desde as obras até as concessões de impostos e mudanças na legislação foram duramente questionadas pela oposição, pela imprensa internacional e, timidamente, pela imprensa nacional...

....fenômeno semelhante, o papel da oposição para evitar grandes desvios de rotas e grandes tragédias em eventos em geral e na economia, em particular, é fundamental e, certamente, ajuda a explicar o sucesso de sociedades com longa tradição de respeito e inspiração democráticas. Ao se opor e ao criticar acabamos provocando ajustes tanto do lado da oferta como do lado da demanda,  que nos empurram, a todos, para um equilíbrio mais razoável onde tudo funciona melhor, um equilíbrio mais próximo de um bom ajuste, ainda que imperfeito e cheio de pontos cegos. 

Essa é a sorte dos governos democráticos de plantão, poder corrigir rumos na política econômica no calor do debate com os opositores, não enxergar essa trama, de certa forma, endógena, é uma fonte constante de fracassos de sociedades com viés autoritário ou populista, uma tragédia comum, aliás....

03 agosto 2014

O jogo da renegociação de dívidas

Um exemplo no capítulo 6 de Barron (2013), sobre jogos cooperativos, ilustra o que pode ter ocorrido na negociação da divida Argentina.
Um devedor não consegue pagar todos os credores e quer fazer um acordo sobre o % da divida que será realmente paga para cada credor. A composição da dívida total seria de R$ 125.000,00, assim dividida por credor:
Credor A – R$ 50.000,00
Credor B – R$ 65.000,00
Credor C- R$ 10.000,00
Acontece que o devedor só dispõe de um montante de R$ 100,000,00 para realizar os pagamentos. Numa tentativa de acordo rápido o devedor se propõe a pagar 80% da divida de cada credor, conforme o quadro resumo abaixo. E deposita antecipadamente o montante disponível para caracterizar o pagamento e forçar um acordo rápido.
Quadro Resumo: proposta ingênua
Divida
Valor
Percentual
proposta
%Credor
Credor A
50.000
40
40.000
80
Credor B
65.000
52
52.000
80
Credor C
10.000
8
8000
80
Total
125.000
100
100.000





Os credores não aceitariam o acordo proposto por motivos óbvios, eles podem se unir e conseguir uma acordo melhor. Acontece que eles podem atuar em conjunto e tentar obter um percentual maior dos recursos que foi emprestado. 

Um raciocínio não elementar pode levar cada credor a imaginar o pior cenário o que evidenciaria o que eles poderiam ganhar nesse caso especifico. O pior cenário para um dos credores seria a situação em que os outros dois entram num acordo mútuo e conseguem receber o pagamento integral das suas parcelas ficando para o primeiro o que sobra dos recursos depositados pelo devedor, nesse caso teríamos: “os outros recebem pagamento integral de suas dividas e eu não recebo o que sobra.”

Veja isso é fácil de calcular. O Credor (A) receberia R$ 25.000,00; [ B e C receberiam integral].  Nessa mesma lógica Credor B receberia  R$ 40.000,00 e o Credor C não conseguiria receber nada.
Outro aspecto dessa visão pessimista seria fica com a sobra depois que o outro recebese integral, agora teríamos um acordo dois a dois para dividir a sobra o que daria, por exemplo, R$35.000,00 para ser dividido entre A e C e assim por diante. Por fim, todos os três poderiam formar  uma coalizão grande e receber o montante total e promover uma divisão entre eles..

Esses números permitem encontrar o valor (de Shapley) que seria justo entregar para cada  credor dado o seu real poder de negociação de cada jogador. Mesmo omitindo-se detalhes e a formula para esses cálculos chegaríamos ao quadro resumo seguinte:
Quadro Resumo: proposta ingênua e proposta com Barganha real
Divida
Valor
Percentual
proposta
%Credor
Valor Shapley
%Credor
diferença
Credor A
50.000
40
40.000
80
39.170
78,34
-1,66
Credor B
65.000
52
52.000
80
54.170
83,33846
3,338462
Credor C
10.000
8
8000
80
6.670
66,7
-13,3
Total
125.000
100
100.000

100.010



Veja que agora o menor credor receberia  apenas 66,7% do montante de recursos que emprestou o que seria 13,3% menor do que lhe foi oferecido na proposta original. Ou seja, com a possibilidade de forma coalizões o maior Credor (B) receberia uma parcela bem maior de pagamentos e os outros receberiam relativamente menos de acordo com o poder de barganha relativo que possuem na coalizão de todos em acordo.


Portanto, a Argentina teria um ponto nesse imbróglio porque, talvez, a presença do juiz americano para arbitrar a renegociação da divida altere o poder de barganha a favor dos credores menores o que, além de negar  Shapley, não parece  justo em um sentido não só econômico.

30 julho 2014

Esqueçam a desigualdade

combatam a miséria, teria dito, um prestigioso pesquisador empírico sobre distribuição de rendas no começo dos 1990, [lembrar de encontrar  a referência completa e citação específica], esse discurso, continua o analista, teria convencido o todo poderoso Lula logo no inicio de seu mandato, desse roteiro teria nascido o fome zero e depois a explosão do bolsa família  e todos os conhecidos desdobramentos, re-eleição do próprio e depois a verticalização de postes, o midas transformaria Dilma, um sem paradeiros, mesmo sem entender nada do setor enérgico, em presidente eleita e com reais chances de ser reeleita depois de um desastroso governo. 
Em tempos de bigornas a vida dá voltas, melhor, a vida sempre surpreende, agora, passados todas as crises e o rumoroso e inefetivo fracasso da economia de mercado no império e na comunidade econômica européia, o discurso mudou completamente, seria o aumento da desigualdade e a desigualdade em si, o fenômeno a ser combatido e o discurso voltar-se-ia para o combate à desigualdade, isso, pasmem, porque a desigualdade nos EUA atingiu a perigosa casa dos 0,37 de Gini, lembrem que, no mesmo período, ou por todo o período, nosso Gini nunca ficou abaixo dos 0,52, estupendo. Somos o país mais desigual ou quase do mundo e só agora, porque um francês que morou e publicou nos EUA e que escreveu em francês uma peça quilométrica com teses sobre a inevitabilidade da desigualdade americana alcançar níveis brasileiros por conta da suposta inevitabilidade do r (retorno do capital) seguir maior maior do que o g(taxa de crescimento). O oportunismo humano não tem escrúpulos, agora, sabemos o erro de toda a política social anterior, e ainda precisamos crescer, uma rigorosa análise exigiria um mea-culpa, muitos pedidos de desculpas ou inevitabilidade de uma derrota convincente, daquelas para mudar a história. Nosso comportamento ideológico padrão, no entanto, nos colocará no mesmo lugar e o mais provável, nos tornaremos mais desiguais, mais pobres e sem moeda, enquanto isso, o famoso francês será desmentido  em suas casas, a francesa e a americana.

27 julho 2014

não vamos bem e não é só no futebol

perdemos como nunca, perderemos, se continuarmos nessa sequência de estágios sem controle ótimo, também em outros campos, o social e o econômico, se continuarmos com essa teimosia dos condutores da coisa pública. Excessos a parte, o governo deveria mudar o rumo, abandonar os projetos de briga com o mercado, seja lá o que isso signifique, e deveria adotar uma postura outra, menos intervenção no Bacen, menos maquiagem de contas públicas, menos bndes e, principalmente, mais liberdade econômica. Esse desenvolvimentismo de manual da década dos 1950 não serve para o mundo que vivemos. Ao certo mesmo, nem sabemos se já serviu um dia. Não é possível manter a economia girando em empregos pequenos e com baixa produtividade geral e apostando no direcionismo e no gasto público sem freios...blá, blá, blá. 
essa ladainha já foi repetida inúmeras vezes e todos estamos cansados de repeti-la e de ouvi-la. O diagnóstico é cansativo, como é cansativo e desgastante, sem redundâncias, comprar briga com o partido no poder, eles tem muita culpa, são culpados, mas todos somos e, portanto, o diálogo é necessário, e se alguém vai fazer a transição para um país melhor, a equação vai ter que incluir os que estão no poder por 12 anos seguidos, essa é a novidade, eles estão  cegos e errados, mas não é o ódio que vai faze-los enxergar que o país precisa de outra bossa de outra forma de atuação para superar o estágio um de inclusão social e prosperidade. Depois da estabilidade macroeconômica e do ajuste geral, deveria vir a virtude das políticas públicas e uma maciça dose de racionalidade econômica. Estamos fazendo exatamente o contrário, estamos jogando fora o pouco de racionalidade, credibilidade e previsibilidade que conquistamos com o Real por um projeto que não faz sentido em lugar algum, está na hora de conversarmos mais sobre ideias, boas ideias, e  de abandonarmos as trincheiras, isso é necessário para que consigamos evitar outro vexame, outra goleada, essa, a do fracasso econômico, bem mais dolorosa e que tem como vítimas maiores os mais necessitados e pobres na nossa desigual e espúria distribuição de rendas....

19 julho 2014

"por algum motivo insondável"

a leitura, só ela, impede o curso normal das palavras escritas pelo mesmo motivo do título, roubado do Daniel Galera logo na primeira página, pelo mesmo motivo, interrompo a leitura para escrever, pelo mesmo mote, sem saber o porque, eis o tom, o disperso tom, não saberemos nunca, mas ler, escrever, ler novamente, assim, no imperativo, somos, seremos, fomos, até agora mais lendo do que escrevendo, vivemos. Seres insondáveis, então, percorrem o arcabouço criativo, o uso despretensioso de palavras, a trama, a urdidura da mesma, a imensidão polar ou desértica dos fios condutores da vida, qualquer uma, seguem o insondável caminho, o 'path dependence' para alguns, parta outros, o "evolucionário ajuste a restrições insondáveis, como de resto, a hora última e o movimento das cifras nos "etudes de Chopin" ou no e do próprio Galera, que nasceu em São Paulo, mas veio viver em Porto Alegre, como o insondável ser que escreve sem propósitos, apenas para despejar a carga, arriar a burra, no pergaminho digital que nunca se apaga, o registro, ponto.

29 junho 2014

copa sem brilho....

a copa do mundo de futebol no Brasil é um fiasco ou é um sucesso estupendo, não há meio-termo, a única novidade é a adesão de boa parte da esquerda - a que se encontra no poder, lógico -  à nobre arte do futebol que passou do "ópio das massas" para o reino das oportunidades de mostrar um Brasil melhor ao mundo. tecnicamente, sem extremos, temos uma copa igual às demais, em tudo, a única diferença, talvez, seja a percepção dos fiascos todos com um olhar mais próximo de quem é da sede ou do lugar que organiza a tal festa. Dito isso, temos:

  • um futebol ruim no geral, times visivelmente pouco preparados, e jogadores sem condições físicas para uma competição de férias...
  • a seleção brasileira só existe na boca da mídia, ajunta gente jovem e disposta, mas sem nenhum brilho e que tenta ganhar na correria, nenhuma jogada brilhante ou articulada, apenas correria e voluntarismos...
  • as surpresas da copa: Costa Rica, Argélia, Colômbia, Chile, etc. gravitam entre o sofrível e o mediano absoluto, não são times de escol e só enganam os adoradores de adjetivos sem conteúdo
  • os favoritos Argentina e Holanda, ainda não fizeram uma partida com o brilho típico de verdadeiros campeões, são comuns e correm bastante, mas não vieram preparados para participar de um torneio importante.
  • a única que destoa desse quadro todo até aqui é a Alemanha, resta saber se irá suportar o calor e a mesmice chata que essa copa tem sido...
  • a França, bem, melhor não encontrá-los antes da final
  • Os outros aspectos todos foram silenciados pelo nosso patriotismo de ocasião e pelo paternalismo da imprensa internacional que se comporta, até aqui, como visitantes educados que fingem não perceber ou ver o  que não funciona e por quê...

10 junho 2014

inacabados

somos, melhor dizer, seremos, um país de inacabados, não gostamos de prazos, de hora marcada, nas obras sempre seguimos a estética da aparência, o gramado é mais importante do que as cadeiras ou do que os hidráulicos para os banheiros, descuidamos da segurança, da rampa de acesso para os que estão em dificuldades, no fazer a obra a acessibilidade é o detalhe que não precisamos fazer ou acabar, em tudo, temos o gramado, contudo. Em dias de vésperas sempre estamos com muito por fazer, mas já temos o  principal da festa ou para a festa, a monumental fachada, o porto sem guidastes para os toneis ou rampas para o atracamento, sem profundidade ou calado, lá estão projeto encalhado, papel inacabado, no papel, apenas, mas a vistosa embarcação ou plataforma com a foto do político, do gestor bajulador e seus séquitos, adorna prontamente acabado o breviário e o programa da apresentação enganadora. Teremos chão batido ao redor,  e não encontramos a lista dos operários da monumental obra que voltam pra casa no ônibus ou na linha de transporte inacabada do trem de superfície da cidade subterrânea. 
Ao chegar o dia, damos o pontapé inicial na grande obra, gargalhamos e fazemos discursos grandiosos sem nenhuma alusão ao que está por fazer, o inacabado que tanto aprovamos e cumprimos e somos, assim como a vida digna, inacabada, inconclusa, inválida....