14 abril 2013

O cachorro sem dono...

o aeromóvel chegou, sim, Porto Alegre terá um, melhor, terá dois, o primeiro lá está, trinta anos e nunca saiu do lugar, esse novo, sairá, servirá para atravessar duas pistas largas do aeroporto até a estação do metrô de superfície, um ridículo a mais, uma sem sabedoria sem fim, uma paisagem de ficção no meio do Salgado Filho, o aeroporto. Atende ao projeto de maquiagem da cidade para a copa, um muro a mais de desatinos a revelar as opções que fazemos em nome da Copa do mundo de futebol e do bolsa família, algo sui generis, somos a classe C que ainda observa extasiados a aviões pousando e decolando e que ainda caminhamos nos parques povoados de cachorros sem donos que fazem suas necessidades nos nossos pés, mas temos o aeromóvel, a classe c e o bolsa família, 900 metros, um pouco mais, a distância que a peça irá transpor para levar os turistas e os jornalistas, a mesma distância que precorro, ou tenho que percorrer, para pegar um ônibus de linha ás seis da manhã, um pouco mais, um pouco menos, poucos dias ou vezes, é verdade, vou por uma rua quase deserta, pelo meio da rua, para evitar ou tentar evitar os cachorros sem donos, na minha fantasia de medo, lobos e matilhas com um ou dois alfas a perseguir seres magros e de olhos verdes, todos lobos, dentes de lobo no meu destino, sem donos, os cachorros gastam os impostos em aeromóveis, mesmo sabendo que os cachorros vagueiam pela cidade a cata de trabalhadores da educação pública, de qualidade e gratuita só no jargão clichê dos intelectuais do b, porque, a julgar pelos ônibus lentos e que percorrem muitos quilômetros antes de chegar a santa casa, somos os verdadeiros  cães sem dono, mas a cidade orgulha-se de ter um aeromóvel, o bolsa família e a classe c, todos educados e muito politizados...

3 comentários:

Flavio Comim disse...

Excelentes pontos sobre os simbolos que rondam nosso imaginario politico.

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

E me lembrou o "cão sem plumas" do velho João Cabral. E hoje lembrei que, quando Olívio Dutra foi candidato a governador (e perdeu) em 1994 (?), sugeri que criasse um milhão de empregos na Brigada Militar. Não prometeu, não ganhou. Com essa turma, os cães e os cidadãos sem dono seriam retirados das ruas e reciclados para manter a mente quieta, a coluna ereta e o coração tranquilo.
DdAB
DdAB

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Em compensação tem aquele negócio do Lunik 9: muito bem, confesso, estou contente também.
DdAB