14 março 2009

poesia na tarde


Os Meus Livros
(Jorge Luis Borges, do livro A rosa profunda)

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim.
As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.


(xxx)


JAMES JOYCE
(J. L. Borges, do livro Elogio da Sombra, 1968)

Em um dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus estabeleceu os dias e agonias,
até esse outro em que o onipresente rio
do tempo terreno retorne à sua fonte,
que é o Eterno, e que se apague no presente,
o futuro, o ontem, o que agora é meu.
Entre a aurora e a noite está a história
universal. Da noite vejo
a meus pés os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.
J. L. Borges.


2 comentários:

Angelo M. Fasolo disse...

Se não me falha a memória, um trecho deste poema de Borges foi entregue aos presentes na missa de sétimo dia do Nuno. Este poema estaria marcado em um livro da biblioteca dele.

Abraço!

Anaximandros disse...

Angelo, sinceramente nao lembro,mas, apesar da falta de sentido da vida, faz sentido, o professor Nuno cultivava livros e amigos...abraco eobrigado pela visita.