25 maio 2015

moleira plena, o bardo.

 descemos para o centro para caminhar por ruas novas (sic), logo na primeira rua, calçadas largas e mesas com gente de todo lugar do mundo, 'mira' e o característico agradecimento local, italianos  e risadas sonoras, mais, muito mais, do outro lado da rua uma barbearia com o título convincente de "hair´s design" e uma variante árabe do mesmo nome. A barba desproporcionalmente grande desde o inverno passado e o voo dos patos no córrego ao lado da cervejaria, foram decisivos, entramos, a hora é agora.
Levei alguns segundos para entender que deveria sentar e esperar aproximadamente 20 minutos.  Escolhi um sofá grande nos fundos em frente a um barbeiro jovem de óculos moderninho e relativamente baixo, que lembrava muito um lateral esquerdo fluminense, provavelmente árabe. Entre duas guris, filhas do senhor à minha direita, e de vários fortões, um deles com uma clássica de salto alto no colo, aguardei ansioso.
Acompanhei o corte de cabelo dos fortões, em silêncio e com uma expressão corporal de fadiga, o barbeiro seguia sempre o mesmo roteiro, com a máquina raspa tudo atrás, depois molha o que sobrou na moleira, remodela com a tesoura, e, não satisfeito,  passa a navalha atrás. O resultado era sempre o mesmo, uma combinação de Ronaldo fenômeno contra a Turquia e moicanos do Guarani de Sobral...
Passados 15 minutos e três cortes iguais, comecei a desenvolver manias persecutórias, lembrei que as gurias riram quando entrei, comecei a elaborar o porquê. Eu era, afinal, o estranho naquele lugar e já imaginavam meu cabelo no formato moleira plena. Imaginei um plano de fuga, na minha contagem, seria o próximo, tarde demais para desistir, perguntei ao vizinho se todos os cortes eram no mesmo formato, ele respondeu, 'sim, você poderá ser atendido por qualquer um', pelo nível de comunicação seria o corte mais definitivo  da minha vida e seria o alvo de piadas no seminário das terças, e, provavelmente, teria que adiar meu retorno, já me via preparando uma carta formal solicitando mais prazos, sem revelar integralmente os motivos.
Chegou a minha hora, solicitei barba e cabelos curtos, mas cuidado com a máquina, mostrei uma foto de 10 anos atrás no celular, o lateral do fluminense não gostou muito e disse em alemão curto, 'não precisa mostrar mais  o celular', e assim fomos, em dado momento o meu vizinho da resposta se aproximou para ajudar na tradução, agora eram três línguas locais e a minha, 'muito bom' disse com voz tremula, 'agora o mesmo para a barba... mais, por favor'. Insisti que um lado estava assimétrico, e denso na frente, ao final tentei perguntar quanto era, nada de acordo, levaram-me até o caixa e paguei doze pila, uma quantia justa para um belo trabalho.
'O senhor esqueceu a mochila..',  dizia o meu interprete e personal-estilista já na calçada, agradeço efusivamente, atravesso a rua e vou comemorar o voo dos patos e a  não navalhada...

Um comentário:

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Magistral, grande filósofo. Aí é verão? Aqui também...
DdAB